Age Of Artemis: Evoluindo Naturalmente

A banda brasileira Age of Artemis lança seu mais novo petardo “Monomyth” e explora um conceito de jornada cíclica presente em mitos. Mas o que realmente impressiona é a qualidade musical do conjunto. Com três integrantes novos na banda, estes sendo Pedro Campos (vocais), Jeff Castro (guitarra) e Riccardo Linassi (bateria), a Age of Artemis conseguiu superar seu maior desafio: fazer seu som fluir naturalmente sem parecer mecânico. Tive uma conversa legal com os integrantes da banda e falamos sobre a escolha do novo vocal da banda, o álbum “Monomyth” e os próximos passos de uma das grandes bandas de nosso cenário musical. Confira!

Por Marcos Franke

Como foi se adaptar a voz de Pedro Campos? Vocês tiveram alguma dificuldade de adaptação com ele para a composição e criação das músicas de “Monomyth”?

Giovanni Sena – Na verdade a adaptação foi mais por parte dele. Quando o ouvi pela primeira vez, percebi que ele tinha técnica e alcançava todas aquelas notas agudas que normalmente os vocalistas de heavy metal tem. Sabendo disso, resolvi tomar um caminho contrário. As melodias exploram um lado mais interpretativo que muitas vezes nem são tão agudas ou usam técnicas como drive, por exemplo. Foi muito fácil trabalhar com o Pedro. Ele sacou desde o início o que estávamos tentando explorar. E acredito que o resultado ficou incrível.

Apenas com a divulgação da música ‘The Calling’ já pude perceber que Pedro Campos é a tampa da panela para o Age Of Artemis. Deve ter sido difícil escolher músicas para o álbum com um profissional com um alcance vocal como o dele, não?

Giovanni Sena – Na verdade foi muito fácil. As músicas fluíram de uma forma muito natural. Não digo que não deu trabalho, pois muito fosfato foi gasto nesse disco. Sim, o Pedro foi a escolha certa para a Age of Artemis e ficamos muito grato pois ele é um cara muito talentoso e além disso, todos nós estamos na mesma frequência, como se fossemos amigos há anos.

Jeff Castro – Explorar a extensão do Pedro nos trouxe muitas possibilidades. Como o Giovanni disse, deu trabalho num contexto geral, mas trabalhar com um profissional como Pedro foi fácil.

“The Waking Hour” ainda tinha muita influência de ritmos brasileiros e influências de Angra em sua música. Percebi que em “Monomyth” vocês se distanciaram um pouco desta influência, com músicas ainda mais “pesadas”. Como foi para vocês cortar este cordão umbilical?

Giovanni Sena – As influências sempre vão existir. Esse “corte” é impossível de acontecer. Somos brasileiros, essas influências sempre estarão presentes. O que acontece é que toda banda caminha pra encontrar uma identidade, seu próprio som, e isso vem com o tempo. É um processo natural. Talvez “Monomyth” seja a melhor representação do que vem a ser a Age of Artemis. A gente não tem a preocupação de escrever uma música e ela por algum motivo parecer com algo. A gente simplesmente escreve a música. Estamos livres dessa prisão de que “é ou não é parecido”. A música sempre está em primeiro plano.

A diferença entre “Monomyth” e “The Waking Hour” é algo descomunal. Parece que é outra banda. O que mudou tanto para que esta impressão fique para o ouvinte? Certamente o vocal ajuda a dar esta impressão, mas parece que a banda inteira evoluiu muito neste intervalo dos álbuns – a exploração aos detalhes como no solo conjunto em ‘Unknown Strength’ deixa isto ainda mais evidente.

Giovanni Sena – Certamente há diferenças. Porém são diferenças que de alguma forma se encontram na forma da música, nos conceitos harmônicos. Mas talvez o que mais diferencia é o fato de termos três integrantes que não fizeram parte daquele momento da banda no “The Waking Hour”: Riccardo, Jeff e Pedro respectivamente. Mas como falei antes, foi tudo bem natural, não houve nenhuma discussão de que a banda deveria tomar essa ou aquela direção.

Jeff Castro – A gente evolui todo dia. Faz parte do processo. Mas acho que essa diferença se dá na entrada de novos integrantes. Cada um tem sua particularidade, influências, jeito de tocar e de pensar. Realmente foi natural. A gente só sentou e trabalhou nas músicas. Não pensamos em caminhos, só seguimos o que estávamos fazendo.   

“Monomyth” é muito bem produzido e todos os instrumentos podem ser ouvidos sem problema algum. Houve uma preocupação na masterização e produção do álbum para que os instrumentos ficassem assim tão na frente quando comparadas ao vocal?

Riccardo Linassi – Tenho a alegria em dizer que este é um dos melhores trabalhos que já gravei. Os próprios técnicos do estúdio, tanto os da gravação, quanto o da “Mix” e “Master” elogiaram o trabalho. O que facilitou muito na hora da finalização. Está soando bem orgânico, sem sound replaces.

Giovanni Sena – “Monomyth” é o som que estávamos procurando desde o “Overcoming Limits”. O som de batera é real, isto é, não há “sound replacement”, e isso faz uma diferença enorme. A voz continua na frente como nos outros álbums. É fácil de perceber se você ouvir um trecho de uma música e ir baixando o volume aos poucos. Você vai perceber que a voz será a última coisa a desaparecer. Mas o fato de trabalhar com o Damien Rainaud ajudou bastante. É um cara que tem bastante expertise no gênero.

Com as faixas ‘The Call of the Fear’ e ‘Reborn’ vocês não tiveram medo de complicar as canções e exploraram muito a melodia, criando pontes absurdas para voltar a melodia principal. Como foi criar estas ‘pontes’ musicais neste novo álbum?

Riccardo Linassi – Na verdade não procuramos complicar nada, pois isso soaria muito mecânico e matemático. As coisas aconteceram e, algumas vezes as partes difíceis surgiram naturalmente.

Em geral, “Monomyth” deve ter sido um álbum absurdamente difícil de tocar e certamente foi um grande desafio para vocês. É por isso que vocês acreditam que este representa exatamente o que o Age of Artemis é musicalmente?

Giovanni Sena – Não pela dificuldade das músicas, mas sim pela forma de como estamos nos expressando por meio delas. A parte técnica está a serviço da música. Nada foi pensado que deveríamos tocar difícil pra soar bem. Na verdade, as melodias são bastante simples e fáceis de memorizar. Todo o resto trabalha em função dessas melodias.

Riccardo Linassi – Reiterando o que disse antes, a gente procurou o que fosse melhor pra música. Se algo mais simples soasse bem, ok. Se era pra ser mais trabalhoso, ok também. A música veio em primeiro lugar.

Jeff Castro – Na verdade o que foi desafiador foi o conjunto da obra e todo o caminho que nos levou a esse resultado.

Jeff Castro (guitarra), Riccardo Linassi (bateria) e Pedro Campos (vocais) são os novos integrantes da banda. Eles foram fundamentais para que a sonoridade do Age of Artemis mudasse tanto assim? O que mudou na forma de compor da banda?

Giovanni Sena – Sem dúvida. A presença deles foi fundamental. Cada um colocou a sua forma de ver e interpretar o que estava sendo criado. Isso faz muita diferença. Fazendo uma analogia, é como você ouvir a nota “dó” sendo tocada por Miles Davis e o mesmo “dó” sendo tocado por Chet Baker. A nota é a mesma, os dois sons belíssimos, porém diferentes.

Riccardo Linassi – Cada mudança é traumática, ainda que seja pra melhor. Somos caras diferentes, com vivências e influências diferentes. Porém a química em prol do que a banda precisava fluiu e com isso, “Monomyth” nasceu.

‘A Great Day to Live’ é uma das baladas mais interessantes que já ouvi com uma interpretação inspiradíssima de Pedro Campos nos vocais. Como a idéia para esta música surgiu?

Giovanni Sena – Essa é uma das minhas preferidas do álbum. Essa música mostra bem as nossas origens e como somos atrelados a ela. A parte instrumental e a letra retratam muito bem isso. A representação de um ser humano mais consciente, com mais experiência e tolerância serviu de inspiração para escrever essa música.

Uma das grandes conquistas da banda foi poder tocar numa das edições do Rock In Rio. Qual é o próximo passo para o Age of Artemis?

Giovanni Sena – Estamos na batalha de tornar o Brasil um país autossuficiente no que diz respeito a cena das bandas brasileiras. Falar que o Brasil é rico culturalmente é “chover no molhado”. Os nossos passos vão de encontro com a conscientização do publico, promotores e afins que bandas do Brasil podem gerar receita dentro do Brasil, criando assim uma cena forte e autossustentável. Sem precisar fazer “fama” fora do Brasil para que os shows ocorram DENTRO do Brasil. Talvez isso seja uma de nossas missões.

Vida de banda independente no Brasil é muito difícil. Como vocês fazem para se virar nos 30?

Riccardo Linassi – Dou aulas de musicalização infantil em duas escolhas em Belo Horizonte. Tenho alguns alunos particulares de bateria. Faço parte do Instituto Musical Darezzo, que é uma escola de música online. Toco na noite belorizontina com a banda Cash, que faz 2 a 3 shows por semana, além da Dinnamarque (minha outra banda de metal). E agora estou estudando sobre trilha sonora pra jogos, que é uma área bem interessante e que pretendo seguir nela.

Jeff Castro – Viver de música no Brasil é dureza com certeza. O mercado é grande e tudo que fizer tem que ser feito com cuidado e muito bem pensado. Todos nós da Age vivemos da música, graças a Deus. De certa forma, nosso cuidado, respeito, carinho e profissionalismo pela música, nos tem provido sustento financeiro.

Todo o sonho do início de uma banda é ser famoso, lançar um álbum arrebatador e dominar o Mundo. Qual é o sonho dos integrantes do Age of Artemis por enquanto?

Jeff Castro – Eu brinco com o pessoal dizendo que eu sou um cara sonhador. Não tenho nenhum dos pés no chão. Faço música porque acredito que um dia teremos o respeito e sucesso merecido a nível “mainstream”. Faço o que amo e já me sinto sortudo por isso. Tenho fé que o caminho que estamos trilhando nos trará bons frutos.

Giovanni Sena – Minha visão de mundo mudou bastante e vive numa eterna mudança. Hoje em dia prezo pelas coisas mais simples. Continuar prezando e aproveitando os momentos com a família e amigos talvez seja o que mais sonho ultimamente.

Riccardo Linassi – Sonho em morar nas montanhas, isolado sem ninguém por perto, com lugar onde possa trabalhar e produzir sem interrupções. Adoro receber meus amigos em casa pra bater papo, fazer um churrasco tomando cerveja. Sair de casa só pra comprar comida e fazer shows!

Muito obrigado pelas respostas e parabéns pelo ótimo álbum “Monomyth”!

Giovanni Sena – Valeu o espaço. Conte conosco.

Jeff Castro – Muito obrigado pelo carinho e apoio. Espero que todos vocês gostem do disco assim como gostamos de todo o processo. Grande abraço.

Riccardo Linassi – Muito obrigado pelo apoio. Nos vemos por aí em breve! 

Escute o álbum “Monomyth” nas plataformas digitais:
Spotify – https://spoti.fi/2WHCcCD
Deezer – https://bit.ly/2YJh0Ot

Mais informações:
http://www.ageofartemis.com.br/
https://www.facebook.com/ageofartemis/

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