Cradle Of Filth: O Retorno do Terror

Foto: Divulgação

A banda Cradle of Filth já está no mercado há 24 anos e coleciona sucessos e críticas com seus álbuns inspirados nas histórias de Terror, Vampiros e Lobisomens. Com o álbum Cryptoriana não é muito diferente. Inspirado pelo Horror Gótico da Era Vitoriana, Dani Filth mais uma vez acerta na mosca na temática e junto com os músicos Daniel James Firth, Martin Skaroupka, Lindsay Schoolcraft, Richard Shaw e Marek ‘Ashok a banda lança um de seus melhores trabalhos. Aproveitamos para trocar uma idéia com o líder da banda, Dani Filth sobre diversos assuntos relacionados ao álbum novo, a expectativa para os shows na América do Sul e sua visão sombria sobre o futuro da música extrema. Confira!

Por Marcos Franke

Rock N Louder: Parabéns pelo lançamento do álbum novo!

Dani Filth: Obrigado!

RL: Como foi planejar o contexto das letras para o álbum Cryptoriana?

DF: Bem, não houve muito planejamento por que o processo de composição das letras foi tão prolífico. E o que eu quero dizer com isto é que nos viajamos para ensaiar na República Tcheca e nos deixamos levar pela cidade em que Ashok e Martin viveram. Nós tínhamos a intenção de ir lá  utilizar o quarto de ensaio de Martin e fazer idéias para um novo álbum surgirem. Fizemos tanta preparação para isto que o álbum ficou praticamente pronto, o que foi uma surpresa para mim e isto me pegou desprevenido pois isto me deixou com alguns meses para preparar idéias. mas naquela época eu estava lendo contos de Horror da Era Gótica Vitoriana como Lois Stevenson, HG Wells, Oscar Wilde e coisas assim e foi estranho pois parecia predestinado que as músicas que estavam prontas meio que espelhavam os sentimentos e atmosfera deste período. Daí eu pensei “Bem, este é um ótimo ângulo a ser abordado aqui”. E foi assim que também surgiu o título do álbum Cryptoriana, pois é um amálgama de vitoriana e cripta que é um exagero e enaltece o encantamento da Era vitoriana pela Morte, espiritualismo e eram pessoas realmente mórbidas nesta época. E funcionou melhor do que eu havia imaginado. Mas como disse inicialmente, as coisas tomaram forma tão rapidamente que fiquei muito surpreso com tudo isto.

RL: O tema é bem mais obscuro que Hammer of the Witches, não?

DF: Parecido. Os dois álbuns não são exatamente conceituais de uma maneira consensual. Eles meio que compartilham um título familiar. Mas por outro lado as músicas em Cryptoriana são baseadas na Era Vitoriana ou Imperialismo ou coisas que eram muito grandes na época como o surgimento da literatura gótica do século 18 – elementos da Insurgência. Eu vivo numa casa vitoriana e tenho muita coisa coisa colecionável da Era vitoriana e eu não me surpreendo muito por ter uma influência muito forte desta época. Tenho certeza que faremos algo diferente no próximo álbum, vamos ver se conseguimos driblar esta forte influência (muitos risos).

RL: O tema é mais obscuro mas alguns riffs possuem influências vindas do thrash/power metal. Isto acontece desde que Ashok e Shaw se juntaram ao Cradle of Filth, não?

DF: Eu acho que isto é algo que vem da época antida da banda, da época do álbum Dusk and Her Embrace, Cruelty and the Beast, Midian. Os riffs ali são muito pesados. Com Ashok e Richard se juntando a banda á quatro anos atrás nós voltamos a usar harmonias que combinam duas guitarras e foi uma maneira de utilizarmos a harmonia do heavy metal britânico, mas nada disto foi planejado. Foi muito natural. Você pode associar á qualquer outra banda como Judas Priest, Iron Maiden ou Thin Lizzy, entendeu? Estas são as três bandas top da Inglaterra para mim do NWOBHM. Eu acho que esta tradição passou para a banda também. Muitos fãs e críticos mencionaram que o que está no álbum parece Cruelty and the Beast, por exemplo. E a ironia é que este ano o álbum faz 20 anos e lançamos uma versão remixada dançante para o álbum. Achamos as masters antigas do álbum e transferimos ela da sfitas e remixamos as músicas do nada. Soa incrivelmente bem! Terminamos de fazer a masterização na última semana com Scott Atkins, o produtor que inclusive produziu Hammer of the Witches, Cryptoriana e minha banda Devilment.

RL: Como foi achar um substituto para um músico tão importante para o Cradle of Filth como Paul Allender, que deixou a banda em 2014?

DF: Foi 2014? Acho que foi 2014. Foi bem difícil. Mas Paul tinha problemas para fazer turnês. Ele não as queria mais. Então tivemos que contratar um guitarrista e tentamo James Mcllroy. Ele teve um machucado no pescoço que foi tão sério que ele teve que passar por uma cirurgia – então ele também não pôde fazer a turnê. Não podíamos cancelar esta oportunidade por estávamos fazendo turnê junto com o Behemoth e outras bandas. Era uma turnê gigante. No último minuto achamos dois guitarrista, um inglês e outro tcheco. Foi tudo tão bem encaixado com banda e fãs e todos se adaptaram tão bem que no final deram uma perspectiva nova para a banda. As coisas deram mal, mas ás vezes coisas ruins acontecem para tornar elas melhor.

RL: O último álbum que ele gravou com a banda foi Godspeed On Devil’s Thunder, que foi muito importante pois mostrou sinais de que vocês voltariam para as raízes, com influências da época mais black metal da banda. Você acha que com Cryptoriana vocês superaram e foram ainda mais longe?

DF: Eu acho que ele pode ser sim mais extremo. Mas acho que é tão diferente. Ele mais obscuro, obscuro de um jeito diferente. Era um álbum conceitual que lidou com a vida de Gilles de Rais, um barão francês do século 15 e para isto a música teve que se espelhar nisto tudo. Nele predominou a escuridão. Também foi nosso último álbum com o selo Music for Nations e  muitos fãs disseram que Thornography foi um álbum comercial demais – mas quando ouço á versão deluxe de Thornography (N.E.: Harder, Darker, Faster) colocamos mais peso como Devil to the Metal e The Snake Eyed and the Venomous e Courting Baphomet então íamos nesta direção e era o último álbum com a Roadrunner e não íamos ficar com ele pois foi um álbum muito pop e tentamos mudar para algo mais escuro, totalmente explícito que foi um contraste para o álbum anterior, pois na Roadrunner tivemos Nymphetamine e logo depois Thornography e as pessoas logo imaginaram que seria algo assim e fizemos algo completamente oposto daquilo. Na Sony as pessoas realmente esperavam realmente algo muito diferente do que fazíamos e saiu o Damnation and a Day – um álbum muito extremo.

RL: Cryptoriana é bem extremo mas ao mesmo tempo ele possui variações que combinam com elementos do progressivo. Há tanta informação em cada faixa!

DF: Eu acho que você está mencionando a faixa ‘Cryptoriana’ – ela realmente é muito intensa.

RL: Há uma música no álbum Cryptoriana que se destaca que é ‘You Will Know the Lion by His Claw’. Você pode explicar um pouco como você conseguiu combinar todos os elementos que compõe a música, das letras até o coral?

DF: É um processo gradual este. Primeiro você entende um pouco mais da música e isto é masterizado, manipulado, e sofre mutações com os corais. Queria escrever uma música usando este título e é vitoriano e a letra é baseada nos livros de H.Rider Haggard que é um autor vitoriano que vivia muito próximo da onde vivo agora. A música é uma metáfora para as obras do escritor com o filme A Sombra e a Escuridão (N.E.: Filme de 1996 estrelando Michael Douglas e Val Kilmer que caçam os leões que simbolizam a Escuridão e a Sombra encarnados pelos índios curandeiros que foram mortos na região africana próximo ao Rio Tsavo) e fazendo uma analogia com o que Isaac Newton escreveu, pois ele escreveu tantas e ser um verdadeiro gênio. Sim, era isso que eu tinha em mente. Quis colocar o coral para que toda a música ficasse mais furiosa, poderosa e tivesse aquele poder do álbum Dusk and Her Embrace. Toda a música era para ter uma interpretação cruel/perversa.

RL: Estou muito empolgado para ver esta música e tantas outras tocadas ao vivo novamente, pois daqui á pouco o Cradle of Filth desembarca por aqui. Há cinco anos que a banda não toca por aqui.

DF: Eu espero que clima esteja legal (risos). Estamos prestes a embarcar na segunda perna da turnê para o álbum e serão oito semanas na Europa, contando Rússia e Israel. É inverno lá então começaremos a segunda fase da turnê do álbum que é mais exótica, no caso América do Sul, América Central, Canadá, Japão, Austrália, Filipinas. Vamos atingir os países que são mais quentes e mais agradáveis que a primeira fase. Serão ótimos shows, não tenho dúvida. Até lá já teremos feito oito semanas de shows direto, então imagino que estaremos muito aquecidos para estes shows.

RL: O que você lembra do último show de vocês aqui em São Paulo?

DF: Cara, a comida é incrível, com certeza. O calor, os ótimos hotéis e os shows são sempre muito incríveis. Fizemos mais shows da última vez, passamos por Guatemala e San Salvador até. Mas é muito estranho você ir para países onde hotéis são vigiados por guardas portando uma AK47. É estranho, mas pelo menos nos divertimos muito com os fãs. É cansativo ter que viajar muito, pois Alemanha e Suíça não tem milhares de quilômetros de distância, mas você consegue tocar em lugares que são mais exóticos. São lugares diferentes.

RL: É estranho você visitar estes lugares exóticos e depois você compôr sobre o Horror Gótico da Era Vitoriana e levar isto para este países que não tiveram muito desta época, não? 

DF: É estranho, mas ao mesmo tempo não quer dizer que se este tipo de literatura não foi escrita lá, que as pessoas não apreciem este tipo de literatura. Por exemplo, vou citar até Harry Potter, pois magos realmente não existem, mas a literatura transporta as pessoas para um lugar em que estas coisas existem, sem sair de seu lugar. Filmes também ajudam muito a difundir este tipo de cultura nestes países.

RL: Mas mesmo assim é interessante ver pessoas tão apaixonadas por esta época gótica da história literária se vestindo como nas histórias em seus shows, não? Mesmo em países tão quentes como os nossos na América do Sul, por exemplo.

DF: Sim, isto é muito legal. Ver pessoas realmente apaixonadas como eu por esta época. Realmente gratificante.

RL: Como estão indo os ensaios? Vocês estão preparados para tocar material dos 12 álbuns de sua carreira?

DF: Absolutamente. Vamos mudar o set e na verdade tocaremos de dez álbuns. Vamos tocar músicas de todos os álbuns e passaremos por todos eles. Vamos tocar músicas do álbum novo, mas obviamente tocaremos todos os nossos clássicos como ‘Beneath Howling Stars’, ‘Cruelty’, ‘Born In a Burial Gown’, ‘Her Ghost in a Fog’, ‘Dusk and Her Embrace’, ‘Blackest Magik in Practice’, ‘Honey and Sulphur’, ‘The Promise of Fever’, tem muito mais de outros álbuns também. Não sei ao certo quais outras vamos colocar ainda, mas temos outras na manga que temos praticado no soundcheck como ‘Nocturnal Supremacy’, ‘Under Huntress Moon’ etc. Estamos nos esforçando para trazer um setlist diversificado.

RL: Última pergunta. Após 24 de existência no negócio da música, qual dica você daria para músicos que querem crescer um pouco do negócio mais underground, como vocês fizeram?

DF: Isso é muito difícil pois todo Mundo sabe o que aconteceu com o negócio da música. Estamos tenho mortes lentas. É muito difícil falar sobre isto. Podemos falar por horas sobre isto. O download, e o Mundo digital meio que dilacerou isto que tínhamos. Músico é uma carreira em extinção. Mas eu ainda compro CD´s, tem pessoas que ainda compram CD´s também e apoiam a banda e baixam oficialmente pelos sites das gravadoras, mas a maioria acha que precisa ser de graça. A maioria dos músicos de bandas grandes que conheço precisam achar trabalhos de verdade e isto atrapalha demais para compor e fazer turnês. Quem mais sofre é a cena do metal extremo. Não somos Taylor Swift ou Beyoncé – é uma realidade. É uma cena que fica lá no fundão, super estereotipada. Ela sem apoio, morrerá. No final, todos no Underground acham que são produtores de música e muitas bandas estão lançando álbuns ruins que estão poluindo toda a estrada do Metal – não que todas sejam ruins, mas as que são estão prejudicando mais que ajudando.

RL: Mas qual a dica que você daria afinal. Afinal de contas tem que haver uma luz no fim do túnel, não?

DF: Eu acho que individualidade, dedicação. Você não pode ter um baterista que não aparece nos ensaios, por exemplo. Muitas pessoas querem estar nesta posição, mas nem todas conseguem. Você tem que ser 100% dedicado e estar acima daquelas que estão apenas 99% ali. Aquele 1% é muito difícil, pois já é muito difícil para nós. Por exemplo, não há mais bandas que fecham festivais pois todas as bandas ou estão se separando ou estão mortas. Não teremos mais headliners que nem nos anos 80. Não teremos outro Metallica ou outro Iron Maiden possivelmente por que toda a música possível já foi feita e não há dinheiro na cena para investir neste tipo de música e fazer uma banda ficar deste tamanho.

Cradle-of-Filth-Cartaz-Show-Sao-Paulo-2018

%d blogueiros gostam disto: