Neurosis: O show em que a Arte prevaleceu

Neurosis faz show emblemático, demonstrando pela primeira vez ao público brasileiro as diversas facetas de sua música

Texto: Marcos Franke

Fotos: Edi Fortini

Quem apareceu no Carioca Club mais cedo pôde conferir um mini-festival. A banda Saturndust, uma das bandas selecionadas para abrir para o Neurosis, iniciou seu show para uma casa praticamente vazia. Formada por Felipe Dalam (vocais, guitarra, sintetizadores), Guilherme Cabral (baixo) e Douglas Oliveira (bateria), a Saturndust fez um show energético que engloba influências fortes do metal experimental, doom e drone. A forma psicodélica e original de sua música garantiu um contrato com o selo Abraxas. Spacedoom é o que dominou a casa enquanto este trio estava em cima do palco. Grande performance do trio, que energicamente passou o recado tocando músicas de seus dois álbuns Saturndust e RLC.

Era a vez do Deaf Kids. Uma das exigências de Steve Von Till ao se apresentar em solo brasileiro era ter esta banda abrindo para eles. Os cariocas de Volta Redonda, que agora moram em São Paulo recentemente foram contratados pelo selo do músico, a Neurot Recordings. Formada por Dovglas (guitarra,voz), Mariano (bateria) e Marcelo (baixo) a música do Deaf Kids é difícil de explicar. Com influências fortes do início de Ministry, misturado ao Motorhead e calcado no crust/punk, Deaf Kids levou o ouvinte para uma viagem. Steve Von Till entusiasmado, filmava tudo e agitava muito durante a performance do trio. A utilização da distorção da guitarra para gerar barulhos e texturas sonoras, é algo que Steve já fez muito em sua vida – Dovglas é um embrião para o contínuo de sua arte. E foi isto que vimos. Música em forma de arte. Orgânica, viva. Hipnotizado, apenas acordei de meu deslumbre quando Dovglas utilizou uma espécie de corneta em seu microfone, que mais soou como uma buzina de uma embarcação gigantesca querendo atracar no porto. Impressionante.

Era a vez da tão esperada performance do Neurosis. Formado por Scott Kelly (guitarra), Steve Von Till (guitarra), Dave Edwardson (baixo), Noah Landis (teclado) e Jason Roeder (bateria), a banda subiu no palco do Carioca Club lotado. Cenário bem diferente que as bandas de abertura encontraram. O grande início do show com ‘Lost’, do grande clássico Enemy of the Sun (1993) deixou claro que a banda não seguiria um roteiro e que tudo seria possível naquele palco. A banda claramente não deixou de homenagear o início de sua carreira, trazendo um exemplo clássico do álbum Souls At Zero, a incrível ‘The Web’ – era difícil prestar atenção em tudo que os músicos faziam no palco. Era a distorção da guitarra de Steve, misturada ao vocais de Scott, com a mistura de texturas de Noah Landis nos teclados. A Arte mais uma vez estava viva, bem em frente de nossos narizes. Mas a banda não deixou de fora músicas de seu mais recente álbum Fires Within Fires, lançado ano passado. A mudança de clima e amadurecimento musical era claramente perceptível com a grande intervenção de Noah Landis e seu sintetizador – que grande performance! ‘Locust Star’, a menina dos olhos azuis de Steve Von Till também foi lembrada logo depois e foi recebida com muitos aplausos pelo público. Dave e seu baixo foram fundamentais para o peso nesta grandiosa representação do que o Neurosis pode passar para o seu ouvinte. Penso eu que não havia caixas de som o suficiente para deixar passar a quantidade de som e de texturas que deveriam ter sido transmitidas para a plateia. Um dos momentos mais voltados ao stoner foi a mais cadenciada ‘Water Is Not Enough’, uma das grandes representantes do álbum Given to the Rising (2007) e que teve a participação do público, que bateu palmas logo no início da música. Para mim no entanto um dos grandes destaques da noite ficou para a faixa ‘Takeahnase’, que mostrou uma das melhores performances da banda como grupo em cima do palco. Que energia foi aquela! Enquanto Steve tentava tirar alguns ruídos do amplificador, Noah Landis as misturava com suas texturas e atmosferas de teclado. Impressionante a interação entre os músicos no palco.

A banda terminou seu show com um clássico do álbum Times of Grace – ‘The Doorway’. A arte do Neurosis realmente se sobressai em cada nota, desafinação ou ritmo fora do compasso. Tudo é intencional e faz com que a música se torne orgânica, viva. Os músicos deixam o palco calados, sem trocar uma letra com o público. Certamente, a música já falou tudo o que a banda queria falar. Que grande show foi este do Neurosis! Espero apenas que possamos testemunhar mais vezes ao vivo a arte destes músicos tão incríveis. Parabéns a Abraxas por nos proporcionar com mais esta grande experiência.

 

SETLIST

Lost (Enemy Of The Sun/1993)

The Web (Souls At Zero/1992)

A Shadow Memory (Fires Within Fires/2016)

Locust Star (Through Silver In Blood/1996)

Fire Is the End Lesson (Fires Within Fires)

Water Is Not Enough (Given To The Rising/2007)

Broken Ground (Fires Within Fires/2016)

Takeahnase (Souls At Zero/1992)

At The End Of The Road (Given To The Rising/2007)

Bending Light (Fires Within Fires/2016)

Stones from the Sky (A Sun That Never Sets/2001)

The Doorway (Times of Grace/1999)

 

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