Neurosis: Contra a Estagnação

O mercado da música sempre ditou tendências e rotulou estilos. Uma das bandas que mais dificultou este processo para o mercado é o Neurosis. Formada em 1985, a banda já passou por tantos rótulos, que a lista de estilos explorados pela banda caberia numa folha A4 facilmente. Conversei com o guitarrista e vocalista Steve Von Till e descobri mais sobre esta Lenda do experimentalismo musical e o que os fãs podem esperar do show inédito da banda no Brasil que ocorrerá em São Paulo. Confira!

Por Marcos Franke

Tenho curiosidade em saber como vocês criam estes riffs sonoros para cada música. Quando você sabe quando retomar uma música após um destes momentos em sua música?

Durante os anos, aprendemos como nos render para a música e deixar que a emoção e a energia tomem as nossas decisões. Tirar as nossas mentes do caminho e deixar os nossos instintos tomarem conta, sempre rendeu os melhores resultados.

Noah Landis (N.R.: tecladista) deve ser a pessoa chave para estes momentos não? Eu vi em alguns vídeos em que você também lidera algumas destas distorções. Vocês seguem estes instintos ao vivo também?

Noah é definitivamente a chave para a maioria dos nossos sons transcendentais e tem a habilidade de criar manipulações com o seu equipamento muito mais amplas. Mas todos nós nos orgulhamos de poder nos aproximar destas texturas, então isto poderia partir de qualquer um de nós dependendo do que a música pede. Eu tenho muitos pedais e técnicas que uso para manipular o sinal da guitarra para coisas que nem poderiam mais parecer sons de guitarra.

Noah usa seu teclado mais para texturas, sobreposições de notas e samplers com efeitos de ruídos. Você realmente não ouve um teclado no Neurosis, ouve?

Claro que você ouve. Há algumas coisas com partes de piano tradicional, órgão, sintetizador. Mesmo com seus samplers, ele as morfa e retorce sons ambientais em instrumentos que podem ser tocados. Então ele realmente está tocando partes e não simplesmente soltando samplers pelo instrumento.

Muito se fala na internet do equipamento usado por você nos palcos apelidado de “corrente da morte” (N.E.: Chain of Death Rig). Você o usa ainda?

Este não é realmente o nome que uso. Foi chamado assim uma vez num artigo para guitarristas e por alguma razão caiu na internet. Eu tenho uma complicada cadeia de efeitos nos pedais e capacidade de acionar eles analogicamente, que me permite ter um tom clássico e claro de uma guitarra para algo que soa totalmente destruído.

Visuais foram adicionados à reputação dos shows ao vivo do Neurosis por causa da natureza experimental e psicodélica de sua música. Nós podemos ter a esperança de ver algo assim como no DVD que foi lançado junto com o álbum A Sun That Never Sets?

Em 1991 a gente começou a fazer experimentos suando filmes e slides para criar um carregamento sensorial com o nosso primeiro artista visual Adam Kendall. A ideia consistia que com volume e intensidade da música, a intensidade física e emocional da banda, combinada com as imagens rápidas e arquétipos quebrassem o público, os abrindo espiritualmente e fazendo a música bater mais forte, num lugar mais primitivo e profundo da alma. Trabalhamos com diretores underground de filmes, roubamos pedaços de filmes artísticos e documentários e usamos técnicas usadas desde 1960 para criar um pesadelo psicodélico. Isto foi antes dos computadores e projetores. Não há muitas bandas que tiveram este esforço para criar coisas assim e fomos fundo nisto. Usamos dois projetores de 2 16mm e 6 projetores de slide com estroboscópios e polias motorizadas coloridas. Isto permitiu que criássemos nosso próprio espaço independente da casa em que tocávamos. Para aquela noite, aquele era nosso espaço.

Entre 1999 ou 2000 perdemos nosso segundo cara dos visuais, Pete Inc. e nós passamos a trabalhar com Josh Graham. Naquele tempo muitos já tinham computadores e não fazíamos mais tantas turnês. Projetores de vídeos estavam ficando mais poderosos nas casas de shows em quais nos apresentávamos então, mudamos para o vídeo com um controle mais sofisticado. Com Josh, desenvolvemos uma aproximação mais limpa, sincronizada, menos caótica e mais atmosférica, o que ficou ótimo para como nos sentíamos na época.

Então, em 2012, percebemos o quanto o Mundo havia mudado e nossa inspiração em sermos multimídia e grandes para o sentido havia sumido. O Mundo inteiro hoje é multimídia e nós estamos constantemente olhando para telas e temos supercomputadores em nossos bolsos – havia imagens em movimento em todos os lugares e é tão fácil criar vídeos de fundo que muitos artistas o fazem. Então decidimos remover uma tela de nosso Mundo e deixamos a música falar por si só.

O que você lembra desta gravação de DVD?

Foi realmente um incrível trabalho de amor feito pelo Josh Graham, nosso último artista visual. Foi o jeito que ele encontrou em visualizar suas expressões através de nossas músicas.

Neurosis lançou um álbum ano passado chamado Fires Within Fires. Como você descreveria este álbum se você o compara ao anterior Honor Found in Decay?

Como para todos os álbuns que lançamos, Fires Within Fires é o melhor e mais evoluída manifestação de nós mesmos como artistas e músicos neste ponto. Eu penso que ele aventurou ainda mais fundo em territórios melódicos e estruturas mais concisas.

Neurosis é uma banda que não se apega a rótulos e já mudou de estilos muitas vezes durante os anos. O que estas mudanças te ensinaram?

Estagnação = Morte.

Você acha que uma banda precisa desta variação de estilos em sua música para crescer?

Eu não posso falar por outra banda a não ser Neurosis. Para nós é uma necessidade espiritual absoluta.

Vocês estão vindo para o Brasil para um show em São Paulo. O que o público pode esperar do show? Nós podemos esperar um setlist especial?

Normalmente nosso set list consiste o que nos inspira na hora do show. Nós não tocamos músicas preferidas dos fãs ou músicas que outros esperam que nós toquemos só por causa de uma obrigação pré-concebida. Nós temos que dar 100% de nós mesmos no som e tornar um só com a energia. Ás vezes músicas antigas tem uma validade, ou perdem a energia para nós por um tempo. Então temos que escolher músicas que através delas podemos entregar a intensidade que queremos com mais honestidade.

Vocês têm uma performance recente gravada e publicada no You Tube do Festival Roskilde na Dinamarca, onde vocês tocam ‘Locust Star’ do álbum Through Silver in Blood. É uma música que envolve e hipnotiza o ouvinte. O que esta música significa para você?

É definitivamente uma de nossas peças mais poderosas que já criamos e provavelmente a que mais durou entre todas as nossas músicas. Ela também representa um tempo muito intenso em nossas vidas.

O setlist do Festival não tinha músicas do álbum Enemy of the Sun. Vocês tocarão algo deste álbum em sua turnê aqui na América do Sul?

Eu não sei ainda. Não discutimos o que iremos tocar.

Neurosis-cartaz

 

 

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