Miasthenia: Brasileiros com Força e Honra!

A banda de black metal Miasthenia é um dos pilares do estilo no Brasil. Capitaneada por Suzane Hécate, o grupo prova que com estes 23 anos de estrada, pode-se manter “corpo fechado” á tendências e modismos, seguindo suas próprias ideias sobre música e ideologia. Com seu novo álbum, Antípodas, o Miasthenia traz em seus textos a temática sobre a luta e resistência ameríndia e a importância das mulheres guerreiras nos momentos decisivos das batalhas pré-colombianas enaltecendo a importância deste mesmo espírito hoje em dia. Conversamos com Suzane Hecate para saber mais sobre esta interessante temática e como foi transmitir para a música esta proposta contextual. Confira!

Por Marcos Franke

A música “Coniupuyaras” do álbum Antípodas, é uma verdadeira homenagem ás guerreiras indígenas que protegeram seu território do domínio espanhol que procurava o El Dorado. Quando você pensou neste tema, toda a montagem musical e melodias para a faixa já estavam prontas? Como você imaginou música e contexto histórico juntos?

Eu já pensava nesta temática há bastante tempo, desde o álbum Batalha Ritual em 2004, onde consta uma letra (N.R.: Zôster/Batalha Ritual) sobre as amazonas. Eu já pesquisava sobre elas e tinha o desejo de fazer um álbum mais conceitual com a presença dessas mulheres guerreiras. Mas para isso, foi necessário pesquisar um pouco mais e ir acumulando algumas leituras sobre o tema. Pensar música e contexto histórico juntos já é uma prática no Miasthenia desde o álbum XVI. Antes de começarmos as composições instrumentais nos reunimos para definir a temática do álbum, porque isso é fundamental para a inspiração e a construção da atmosfera sonora/lírica que queremos criar. Enquanto finalizamos a parte instrumental já vou compondo as letras, com base no sentimento que cada trecho sonoro da música vai alimentando.

Antípodas é também um tributo às vítimas do que foi uma das procuras mais estúpidas da Humanidade – O El Dorado. Você como historiadora, acredita que a história poderá se repetir nos dias de hoje? Como?

Como historiadora não vejo que a história se repete literalmente, mas ela tem sim seus efeitos por séculos na vida das pessoas.  A busca pelo El Dorado aconteceu no contexto da colonização, era uma busca agressiva por riquezas, ouro, terras e corpos a serem explorados e reduzidos aos interesses coloniais. Isso teve profundo impacto na vida dos ameríndios e na economia global, mesmo com o fim do colonialismo formal, ainda se perpetua o racismo, as formas de poder e a intolerância em relação paganismo desencadeada nesse processo. Por isso a história pré-colombiana, bem como a memória de luta e resistência ameríndia não pode ser apagada, é preciso também desmitificar o imaginário demonológico/sexista/colonialista sobre a América, porque ele ainda promove nossa estigmatização. O álbum Antípodas se baseia nessas concepções.

Uma das músicas mais imponentes do álbum é a faixa “Ossário”. Sua letra fala sobre os ossuários que foram feitos em tributo à Deusa Guerreira pelas Amazonas. Gostaria muito de saber como foi o processo de criação das melodias para esta música – que imagino deve ter sido muito difícil combinar as guitarras com o teclado, não?

Esta foi a primeira música que compomos. Primeiro, Thormianak compôs as linhas de guitarra, é dele que partiu todas as composições do Antípodas, em seguida eu entrei com os encaixes de teclados, nesse momento a música vai ganhando corpo e dimensões, vou imaginando as linhas de teclado e dependendo dessa construção algumas linhas de guitarra vão sendo reformulada. Assim, a composição da guitarra inspira o teclado e vice-versa, como se a música fosse feita em diálogos e respostas de cada um. Minha parceria com Thormianak é fundamental nesse processo, ele tem grande sintonia com a proposta temática, e se inspira fortemente nos temas que proponho. Gravamos guitarra e teclado juntos e enviamos para o baterista ouvir e compor sua parte, só então entramos em estúdio para ensaio, e nesse processo vamos negociando também os ritmos da batera e os encaixes de vocal.

Interessante que Antípodas é uma homenagem também as mulheres guerreiras, que defendiam seu território com unhas e dentes. Este tipo de mulher, guerreira e obstinada em vencer é a fundação para que o Miasthenia seja uma das bandas mais respeitadas do cenário underground brasileiro? Como você se vê no mercado musical hoje em dia?

Talvez, não só por isso, o Miasthenia é uma banda que resiste e a cada lançamento incorpora ainda mais experiência, força e amadurecimento musical. Acho que o respeito vem, sobretudo, do fato de nos mantermos fieis aos nossos ideais ao longo do tempo. É claro que sempre nos transformamos, mas evoluímos dentro dessa proposta, pois não deixamos de seguir investindo e acreditando na temática e estilo sonoro de nossas composições.  No mercado musical ainda somos bem underground, há inúmeras dificuldades e obstáculos para uma banda do nosso estilo, especialmente porque o Black Metal no Brasil ainda é visto de modo estigmatizado na grande cena e mídia metal. O Miasthenia tem uma mulher no vocal extremo e que não se comporta de modo sensual como preferem a maioria, canta letras em português e fala de temática anticristã e ameríndia, então estamos certos de que escolhemos um caminho nada fácil, mas somos muito orgulhosos do que fazemos e isso é o que verdadeiramente importa.

Acredito que a faixa ‘Araka’e’ é o grande tributo ao Bathory neste álbum Antípodas. Há muitos elementos nela que poderiam muito bem se encaixar em qualquer composição de Quorthon. Bathory ainda hoje é uma de suas maiores influências?

Eu ainda não tinha visto ‘Araka’e’ dessa forma, mas interessante o que você sentiu em relação a essa música, com certeza isso ainda revela nossas influências do Bathory.

Brasil hoje é um país que tem um povo que lê pouco e dá pouco valor a sua própria cultura e língua. Você acha que esta censura que está acontecendo a qualquer tipo de expressão pode contribuir para que o interesse a sua música diminua? Você tem uma sugestão para diminuir o impacto deste tipo de censura?

Acho que esse desinteresse por nossa música já vem de longa data, nunca foi interessante para o grande público, e se fosse eu com certeza estaria fazendo outra coisa, porque a maioria e o senso comum são extremamente preconceituosos e ignorados no Brasil. Minha lista de sugestões para mudar isso seria interminável e poderia chocar os mais conservadores, racistas, sexistas e cristãos. Como historiadora eu venho atuando por meio do ensino de história, e trago isso para as letras do Miasthenia também. É um posicionamento político e poético ao mesmo tempo, de resistência, por meio da perpetuação da memória histórica de outros mundos possíveis com outras concepções sobre a vida/morte, a terra, o corpo, a guerra, o sagrado e as identidades de homens e mulheres.

Já tive o prazer de cobrir shows com o Miasthenia algumas vezes em São Paulo, mas uma das mais emblemáticas foi a minha primeira vez lá em 2004 no III Setembro Negro abrindo para a banda belga Enthroned. O que você lembra daquele dia? Com todo respeito eu me lembro de ver pela primeira vez em minha vida uma das mulheres mais bravas em cima do palco.

(risos) Sempre me lembro de que ao entrarmos naquele palco estávamos muito furiosos, porque os chimbau (N.R.: prato de choque) de nosso baterista havia sumido no camarim. Isto nos marcou, foi muito estressante, brigamos antes de entrar no palco e por pouco quase não tocamos de tanta indignação. Mas foi um show grandioso. Realmente eu estava muito brava. Depois descobrimos que o chimbau estava na bateria disponibilizada para o Enthroned. Ela estava coberta, em cima do palco.

Muito obrigado pela entrevista e espero que você tenha gostado de responder as perguntas como amei mergulhar no universo do Miasthenia. Gostaria que você deixasse uma mensagem aos leitores desta entrevista.

Eu agradeço pelo interesse e apoio ao Miasthenia. Convidamos a todos a conhecer o nosso site oficial www.miasthenia.com e acessar nosso Canal no YouTube com o recente videoclipe (Coniupuyaras – https://youtu.be/KjfZsvMwucY ) e lyric video (Antípodas –https://www.youtube.com/watch?v=LsRIy_n9AWc). Nosso novo CD Antípodas pode ser adquirido também pelo site da gravadora Mutilation (www.mutilationrec.loja2.com.br) . Força e honra sempre!

Miasthenia:

Suzane Hécate – Vocais/Teclados

Thormianak – Guitarra/Baixo

Nygorm – Bateria

Discografia:

Para o Encanto do Sabbat (Demo Tape) 1995

Faun – Trágica Música Noturna / Visons Of Nocturnal Tragedies (Demo/Split) 1996/1998

XVI – 2000

Batalha Ritual – 2004

Supremacia Ancestral – 2008

Legados do Inframundo – 2014

Antípodas – 2017

Contato: miasthenia.horda@gmail.com

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