Instant Lake: Usando a Arte como Arma

O quarteto italiano Instant Lake foi formado por Dario Amoroso e Pierluigi Michele Grauso em 2015. Mais tarde, neste mesmo ano, o duo acrescentou a sua formação os irmãos Daniele e Carlo Landolfi para criar seu primeiro registro em estúdio chamado ‘Refractory’. Lançado no Brasil pelo selo brasileiro Wave Records, tivemos a oportunidade de ter uma conversa profunda sobre arte, música e como a versatilidade musical influencia cada faixa deste grande lançamento. Confira !

“Somos todos induzidos para pensar como moscas, voando em círculos sobre uma pantomima inútil.” – Daniele Landolfi, Instant Lake.

Por Marcos Franke

Foto: Divulgação

O Instant Lake possui muito elementos de diversos outros estilos musicais. Quais outras influências vocês têm em sua música?

Daniele: O post-punk/new wave do final dos anos 70 e o industrial logo depois são do meu contexto musical. Instant Lake possui muitas influências dos anos 80 mesmo os outros integrantes serem bem mais jovens do que eu. As letras, no entanto, refletem o meu humor nesta última década e a música do Instant Lake ajudou muito nesta parte. Mas, possuo também preferência por literatura do século passado e do século 19; na maioria das vezes textos sobre filosofia e literatura militante que tiveram uma influência muito forte sobre mim.

Pierluigi:A vanguarda artística do começo do século 20 (Dadaísmo, Futurismo, mas principalmente Acionismo Vienense) na literatura… hum, nada vem em mente a não ser Pinocchio.

Carlo: Minha inspiração é Riccardo Pazzaglia… “Eu não te vendi um quadro, Eu te vendi uma emoção”… Acho que é isso.

Daniele: Comendo emoções.

Dario: Influências são tantas! Não consigo ouvir um estilo apenas. Para este álbum eu fui inspirado pelo som de bandas como Liars, Soft Moon, Place to Bury Strangers, Cold Cave também, como outras tantas bandas de New Wave dos anos 80.

Vocês são denominados como uma banda de darkwave. O que isto significa para vocês?

Daniele: Significa relatar ao Mundo como ele nos afeta realmente. Explorar o lado obscuro das coisas procurando nossas verdades pessoais como a única chance que temos.

Pierluigi: As influências do álbum são mais que esta. O próximo álbum, ninguém sabe… não definimos um estilo. Talvez possa ser um álbum de reggae ou hip hop! Mas não amamos os estilos (risos).

Carlo: Que você gosta de Davk!

Dario: Significa que as influências e as ideias que chamamos para tocar, acabaram sendo alfo classificável em gênero, nada mais na minha opinião.

Itália tem bandas incríveis, mas a maioria são bem underground como o Instant Lake. Como a cena musical italiana recebe seu estilo musical?

Pierluigi: Só porque somos parte do underground, uma subcultura, temos poucos seguidores fiéis que seguem com muita atenção a cena e as bandas. É importante que haja qualidade na hora da substituição dentro do gênero.

Carlo: Eu concordo.

Dario: A mídia tenta esconder este território porque eles precisam controlar o mercado de uma maneira muito rígida. Tudo no underground é difícil de ser controlado. É triste que em nossa nação este tipo de jogo de poder possui efeitos devastadores em nossa subcultura musical.

A Itália possui algumas bandas muito famosas de rock progressivo e é muito explorado. Como a cena darkwave na Itália é explorada?

Pierluigi: Nos últimos anos eu notei um florescer de bandas dark/new wave (especialmente no Sul da Itália) o que não tem acontecido há algum tempo e possuem até reconhecimento internacional. Não estamos na Florença dos anos 80, mas acho que estamos defendendo ela muito bem até.

Daniele: Eu fui muito fã de música progressiva quando adolescente… ‘Voyage’ é tipo uma música progressiva.

Dario: Como te falei anteriormente, é um território muito escondido.

Vocês acham que pessoas estão esquecendo de curtir a música e estão mais preocupadas em fazer dinheiro nestes tempos difíceis?

Daniele: Uma triste verdade. A maioria das pessoas possuem uma percepção estranha de tempo. Somos todos induzidos para pensar como moscas, voando em círculos sobre uma pantomima inútil. O quanto mais pudermos alcançar tudo em tempo real, mais tudo se estica e não vemos o limite. Apenas tira sarro da gente.

Pierluigi: Bom para nós, de certa forma. Significa que qualquer um que for escutar a nossa música, certamente não faz parte deste “círculo”.

Dario: Absolutamente. Acho que o problema são os modelos de sucesso social e da mídia que nos foram dados. Tudo é reduzido para uma forma de sucesso versus fracasso ao invés de ser uma questão de expressão criativa (Eu não quero falar sobre arte ainda.).

Sua música também é considerada arte.  Você consideraria que sua arte hoje está em perigo?

Daniele: Eu considero nossa música como uma expressão de nossa atitude pessoal…. Dito isto, sim, arte está em perigo quando ela vira rotina. Ela deveria ser o perigo ao invés disto. A Arte sempre foi controlada pelos negócios, a política – o que é um negócio também – independente das disputas dos diferentes gêneros/estilos ou cenas. O perigo é uma atitude que está fora de controle.

Pierluigi: Se ela está em perigo, significa que ela é considerada, contada. Melhor que nada, não?

Dario: Toda forma de expressão pode ser considerada em perigo. O mercado italiano do mainstream lentamente destruiu o mercado independente. Além disso estamos lidando com um âmbito relacionada a comunicação e a nossa não é mediada por filtros comerciais.

Carlo: Eu penso que há dois tipos de perigos que ameaçam a arte, dentro e fora dela. A primeira é conectada ao materialismo, empobrecimento espiritual, etc. mas não as coisas atuais – elas tem umas décadas, até séculos de idade. O segundo tipo é por causa do ponto de vista selvagem e aleatória da arte e lançar ela sem um parâmetro mínimo de objetividade numa Era de imbecis, charlatões e apóstatas falsos da burguesia monoteísta. É melhor não confiar muito na medida subjetiva das coisas. Bom, talvez você não concorde. Eu estava tentando dizer algo inteligente, mas pareceu uma forma retrógada de pensar – o que também é minha.

Daniele: E você ainda passa adiante.

Carlo: Você aplicou.

Daniele: A cera

Pierluigi: PQP! Possessão?

Daniele: Deixa pra lá Visconti!

Pierluigi: (risos)

Na sua opinião, qual seria a solução e como poderíamos resgatar ela?

Daniele: O risco sempre fez parte do jogo. O limite entre a arte e a rotina é muito delicado e permeável dependendo do contexto. Na verdade, não tenho uma solução definitiva para resgatar a arte. Talvez artistas deveriam seguir sua própria atitude e os programas governamentais deveriam focar mais na arte apoiando artistas e promotores em sua própria atividade.

Pierluigi: Bem, Eu não acho que há alguma coisa para salvar – é um período. As coisas se solucionam com o tempo e além disto, pode piorar mais que isto?

Dario: Honestamente, não sei. Prefiro pensar que Arte faz parte da natureza Humana em contradição com o terrorismo cultural que a mesma faz para a cancelar ou a limita para um âmbito mais confortável. Então, neste senso de Arte em geral sempre achará um meio de sobreviver. Você apenas procurará em lugares diferentes, dependendo em como a comunicação mudará.

Carlo: Ao invés de salvar algo, acho que não há nada para salvar. Artistas – sendo eles músicos, escritores ou artesãos de cestas de palha – ficariam melhores se não considerassem ajuda externa, só se quisessem muito dinheiro. Mas para fazer muito dinheiro você tem que aceitar o compromisso que entra na questão de sua expressão que é a essência em ser um artista. A escolha então seria isolamento / falha com certeza da autenticidade e reconhecimento (onde possível) mas com a deficiência do seu potencial de sua própria expressão.

Pierluigi: Que sermão foi este? Você está possuído: certeza!

Carlo: Bom, eu não consigo responder seriamente. Eu sinto todas as respostas são triviais.

Pierluigi: Eles vão achar que ele está chapado!

Daniele: Com cândida.

Falando sobre arte, vocês lançaram dois videoclipes para promover Refractory – ‘Sit Back’ e ‘Caustero’. Os vídeos saíram como vocês imaginaram?

Daniele: Nós tivemos opiniões diferentes sobre o resultado dos vídeos. Então discutimos muito. Eu gosto dos dois. Eles possuem uma aproximação semelhante: ‘Caustero’ e ‘Caustero Paolo Favati Remix at Blue Velvet’ são emocionais, aparentemente abstratos, mas não totalmente desconectados de nossa trilha sonora. ‘Sit Back’ no entanto, é mais relevante á música e as letras. Os dois vídeos são mais uma experiência que possui um estilo parecido com aproximações diferentes para cada vídeo. O próximo completará a trilogia.

Dario: Concordo.

‘Sit Back’ possui uma referência clara ao Salvador Dalí, não?

Daniele: Claro! O vídeo para ‘Sit Back’ roda com duas cenas de filmes experimentais: a seção rítmica e a música primeiramente nos moveram a selecionar imagens de engrenagens e de paisagens industriais. Logo depois adicionamos imagens simbólicas e oníricas destas imagens com uma mulher numa casa contando uma história – e isto parece combinar com a música. ‘Sit Back’ tem letras muito surreais que são inspiradas por um filme que antes eu não considerei. Então o vídeo saiu como adicionar a trilha sonora para um filme mudo por um estranho acidente.

Pierluigi: Como você disse, podemos achar atomsoferas oníricas e surreiais, típicas de Dali, mas também de outros artistas atuais (não é um tributo para Dalí.)

Dario: Concordo.

Refractory é um lançamento muito bom. Como tem sido a recepção até agora?

Daniele: Muito Obrigado… bem, o retorno tem sido tão diferente do que o esperado do álbum. Alguns amigos amaram, outros precisaram de um tempo para entrar no clima – mas no final foram bem positivas. O que é bom. Tivemos alguns retornos muito bons do Brasil, Peru, Itália, EUA, Austrália, França e no Mundo todo. Ainda estamos esperando para que o álbum seja lançado na Alemanha e a distribuição Mundial pela Audioglobe – então dedos cruzados.

Pierluigi: No momento estamos tendo ótimos retornos. Estamos esperando retorno da Dance Macabre/Alive que distribuirá o álbum na Alemanha também. Iniciaremos nossa turnê pela Europa e assim veremos como será a resposta do público.

Dario: Concordo.

Eu acho que para um debute, Instant Lake fez um ótimo trabalho de produção já que você pode ouvir tudo muito bem no álbum. Foi muito difícil mixar Refractory?

Daniele: Realmente. Tivemos muitas dificuldades para mixar o balanço de nossas coisas ecléticas e obter um som. A masterização do Bart soou muito melhor no começo, as fixas fundiram bem, um pouco mais leve – então revisamos algumas partes para que estas combinassem na mixagem antes da masterização. Foi um desafio já que gravamos tanta coisa que de alguma forma se perdeu. Como moramos em diferentes partes do país, tivemos poucas oportunidades de nos encontrar no Hopelandstudio. Bart e nós possuímos um fundamento musical diferente, mas mesmo assim ele se mostrou um ótimo produtor.

Pierluigi:Certíssimo.

Dario: Foi um trabalho muito duro, já que a tarefa não era somente combinar e fazer uma mixagem bem combinada. O som foi um trabalho conceitual que não poderia ser traído – o que ás vezes precisava de soluções não muito convenientes. Além do mais, mixagem também significa comunicação com a imaginação e uma maneira de colocar a performance num ambiente físico e emocional.

Quando você ouve o álbum você está satisfeito com o resultado?

Daniele: Sim, claro! Apesar o álbum ser um balanço entre o que queríamos e o que realmente temos, não poderíamos esperar um resultado melhor. No final Refractory soa muito bem.

Pierluigi: Eu acho que está ok, apenas acho que ainda há muito retorno de sujeira provenientes das guitarras.

Carlo: Como primeiro trabalho, acho que estamos satisfeitos. Claro, há sempre espaço para melhorias.

Dario: Não completamente, claro. Foi um compromisso que alcançamos com o dinheiro, tempo e paranoia que nos acompanhou.

Muito obrigado pela entrevista deixe sua mensagem para os leitores.

Pierluigi: Para os leitores masculinos, amor e paz. Para os leitores femininos “não tenha medo de ternura”.

Daniele: Muito Obrigado Marcos. Nos vemos em breve! Deus abençoe a todos.

Dario: Digo o mesmo que Pierluigi.

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