Les Chats Noirs Project: O Representante Gótico do Romantismo Literário Brasileiro.

“Muitos países investem tanto na produção como na divulgação de sua arte, de sua cultura. Não é à toa que as rádios tocam tanta música estrangeira” – DJ Lucien D’Anjou (Les Chats Noirs Project)

Em tempos em que a arte é questionada, Les Chats Noirs Project, projeto brasileiro de música gótica, rema contra a maré e mergulha fundo no romantismo de Alvarez de Azevedo e resgata registros do escritor brasileiro simbolista Cruz e Souza. Conversamos com o DJ Lucien D’Anjou sobre seu primeiro registro Les Fleurs des Morts junto com a DJ Nyx Raven recentemente lançado pelo selo brasileiro Wave Music Records. Confira a seguir!

Por Marcos Franke

Les Fleurs des Morts é o primeiro álbum da banda. Como foi projetar o primeiro álbum de vocês?

Quando começamos a banda não pensávamos em gravar um álbum inteiro. O processo foi acontecendo naturalmente. As músicas foram surgindo e quando já tínhamos 10 fomos convidados pelo Alex Twin da Wave Records a gravar o nosso álbum. As músicas estão em ordem cronológica e se você escutar com atenção vai perceber a nossa evolução em termos de arranjos e letras.

A música gótica é famosa por transmitir melhor momentos de tristeza do que outros estilos musicais. Estar triste é uma forma de expressão ou também um estilo de vida?

O gótico não é necessariamente triste, mas ele convive constantemente com a morte e todos os sentimentos que a envolvem, por isso há essa relação mais séria em relação à vida e aos relacionamentos. O gótico é, no fundo, um romântico e um pessimista seguindo a filosofia de Arthur Schopenhauer. O gótico é fascinado pela morte e por isso se veste de preto que é a cor do luto e não tem problemas em frequentar cemitérios e flertar com ela. Este luto também é associado ao mundo em que vivemos, o gótico não se sente confortável dentro desse caos que o mundo é.

Afinal de contas, ter como inspiração Alvarez de Azevedo é triste pra caramba! Conte-nos um pouco sobre esta inspiração que escritores brasileiros tiveram em sua música.

A literatura nos acompanha desde sempre e a nossa paixão pelo estilo romântico, mais especificamente da segunda geração romântica ou Ultrarromântica, na qual Alvarez de Azevedo se enquadra, nos fascina justamente pelo seu aprofundamento nas questões da alma e questionamentos a respeito da vida e da morte. Afinal, qual é o sentido de tudo isso?

Vocês são os primeiros artistas que dizem utilizar escritores brasileiros como influência. Você acha que nossos escritores estão cada vez mais esquecidos?

Infelizmente o nosso povo não valoriza a sua própria história nem tampouco seus artistas, principalmente na área literária. Somos um povo que lê muito pouco e o nosso “complexo de vira-lata” não ajuda, valorizamos apenas o que vem de fora do país. Atualmente estamos morando em Santa Catarina, terra do grande escritor simbolista Cruz e Souza e estamos com um projeto de resgate de suas memórias e obras através do circuito gótico local.

Aliás, a arte está sendo cada vez mais censurada por motivos políticos no Brasil. Você acha que isto pode interferir em sua música futuramente?

A política acaba interferindo em nossas vidas diariamente. Não sabemos o que o futuro nos reserva, mas uma política cultural menos conservadora e mais atuante, no sentido de divulgar o que é feito no país seria essencial. Muitos países investem tanto na produção como na divulgação de sua arte, de sua cultura. Não é à toa que as rádios tocam tanta música estrangeira.

Além de DJs vocês também tocam os instrumentos que podem ser ouvidos em Les Fleurs des Morts. Vocês acham que o papel dos DJs hoje em dia está mais banalizado?

O papel do DJ é muito importante, pois ele traz para o grande público as novas tendências e artistas que geralmente não teriam a mesma visibilidade na mídia de massa. Uma das nossas grandes influências é a seleção feita pelo DJ paulistano Felipe Zauber no porão do Madame Satã, uma das melhores baladas góticas do Brasil.

A inspiração para sua música não poderia ser diferente e possui influências de Bauhaus, Sisters of Mercy, Clan of Xymox entre outros símbolos da música gótica. Quando você ouve bandas mais atuais, há algumas que inspiram vocês também?

Sim, sem dúvida! Bandas como Angels of Liberty, Sixth June, She Past Away, Lebanon Hanover, The Beauty of Gemina, são apenas alguns dos nomes das bandas que mais nos inspiram atualmente.

A música ‘Poe’, que está no novo álbum, tem uma grande influência de U2, tanto que ela lembra muito ‘Sunday Bloody Sunday’. Eles são uma inspiração para vocês também?

Essa linha surgiu depois que a música já estava pronta, na guitarra, e apesar de ser muito parecida com a do U2, tem uma variação muito interessante. Pensamos até mesmo em descartá-la pela semelhança com o riff do The Edge, mas decidimos mantê-la com um timbre de teclado. Eu (Lucien) sou dos anos 80, e na época escutávamos de tudo, pois muita coisa boa vinha do Reino Unido.

Aliás, é uma de minhas favoritas deste álbum – acho que a mixagem dos teclados combinou tão bem! Como surgiu a ideia de mixar tantas linhas de teclado juntas?

O nosso processo criativo não é racional. Quando começamos uma música não sabemos que vai acontecer. Sentimos que a música não é “nossa”, mas que somos apenas meios de sua materialização e por isso cada vez que estamos tocando ou até mesmo escutando estas músicas, ficamos perplexos com tamanha beleza. Somos muito gratos de participar de sua criação. Os teclados foram surgindo e tomando conta de uma maneira que ficou extremamente dramático e denso, algo nada “pop”.

O baixo continua sendo um dos instrumentos mais importantes do som gótico e vocês são um bom exemplo disto. Vocês compõem nele primeiro ou utilizam o teclado para a composição de suas músicas?

Todas as músicas começam com o piano da Nyx. É ela quem recebe a inspiração inicial. Quando eu escuto, na mesma hora o baixo aparece em minha cabeça, incrível! O baixo é que dá a sustentação e a harmonia de tudo. E o baixo gótico é muito especial, pois utiliza o efeito chorus. É um som único e maravilhoso.

Vocês tiveram a oportunidade de se apresentar no WoodGothic Festival 2017, um dos maiores festivais de música gótica da América do Sul. Conte-me um pouco como foi esta experiência?

Foi sensacional ver tanta gente curtindo nosso som e tantas bandas brasileiras talentosas. Foi um festival muito profissional e seus idealizadores, o duo Escarlatina Obsessiva está de parabéns. Este festival foi um ponto de virada em nossa história. Por isso queremos agradecer imensamente ao nosso produtor e diretor do vídeo de nossa música Death is Alive, Paulo de Almeida do canal Palco Local, que nos colocou no festival.

Hoje, com Les Fleurs des Morts lançado, vocês tem algum plano para fazer turnês? O que vocês estão planejando para o futuro?

Pois é, temos uma banda, músicas, letras, um cd e um show ensaiado, só falta cair na estrada. Nós produzimos uma festa chamada “Release the Bats” e também produzimos o “Gothic Carnival” em Curitiba, no sábado de carnaval, antes do domingo em que o Zombie Walk acontece. Músicas novas estão aparecendo, mas como todas, elas exigem muito trabalho e tempo, pois requerem muita atenção e cuidado. Cada palavra, cada nota, é pensada e repensada, pois para nós, a música, a arte, é algo muito sério. Como a escolha da foto da capa, do fotógrafo Lorenzo Bonicontro, um verdadeiro artista. Cada foto sua leva muitas horas para ser fotografada, como se fosse um quadro, uma pintura, lembrando muito a técnica Chiaroscuro de Caravaggio.

Muito obrigado pela entrevista e deixe uma mensagem para aqueles que querem conhecer mais sobre o som do Les Chats Noirs.

Nós é que agradecemos por esta oportunidade de divulgar a nossa arte e esperamos que mais pessoas queiram se aprofundar não só na nossa música, mas em todo o universo obscuro e riquíssimo em torno dela: literatura, pintura, moda, arquitetura, filosofia, etc. Um bom começo é a revista Gothic Station do nosso querido amigo Henrique Kipper, que trata de todos estes assuntos relacionados à subcultura gótica.

Site: www.leschatsnoirsproject.com.br

Facebook: http://www.facebook.com/leschatsnoirsbrasil/

Também temos nossas músicas disponíveis no You Tube, Soundcloud, Spotify e Deezer como Les Chats Noirs Project.

https://waverecords.lojavirtualnuvem.com.br/
www.facebook.com/waverecords
www.youtube.com/waverecordsmusic
https://waverecords.bandcamp.com/

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